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A TRINDADE








A Trindade Santa - I
Cursos  do Don. Henrique Soares da Costa
Qua, 06 de Maio de 2009 10:55
O Deus dos cristãos é diferente de todos os outros: é único, original. Nossa fé professa que Ele é uno e trino, um só Deus na Trindade das Pessoas divinas. E, no entanto, os cristãos não compreendem bem o que isto significa nem percebem o quanto isso é importante, fundamental, para a nossa fé. Basta dizer que sem a Trindade, se Deus não fosse trino, a criação não seria possível, a salvação não existiria e não haveria esperança para a história humana nem para o universo! “Como?” – perguntam os cristãos... Todas estas afirmações podem parecer exageradas. Se for assim, se para você tais afirmações são muito radicais, então é porque você é um desses, que não compreenderam ainda o quanto é fundamental, essencial mesmo, que Deus seja uno e trino. É para que, juntos, possamos aprofundar nossa compreensão deste que é o Mistério central da fé cristã  vou apresentar algumas meditações sobre a Santa Trindade.

Tudo começou num Domingo - I
Uma primeira questão: onde a Igreja foi buscar essa fé trinitária? Não seria mais fácil dizer, como os judeus e os muçulmanos, que Deus é um só e basta? Não seria mais simples dizer, como os espíritas, que Jesus é somente um profeta de Deus, alguém especial, mas que é criatura de Deus? Não seria menos complicado afirmar, como as testemunhas de Jeová, que o Espírito Santo é apenas uma força de Deus? Por que complicar? Onde os cristãos foram buscar esta certeza que Deus é uno e trino? Para encontrar a resposta a esta questão, é necessário voltar ao Domingo da Ressurreição: foi ali que tudo começou!

Primeiramente, vamos deixar claro uma coisa: o Antigo Testamento não ensina que Deus é trino, não fala diretamente da Trindade! Os judeus nem sonhavam que Deus é Pai, Filho e Santo Espírito. Eles acreditavam num Deus único, Javé, e acreditavam que este Deus grande e misericordioso enviaria um dia o Messias – alguém muito especial, o maior de todos os profetas, tão grande quanto Moisés: ele viria libertar o povo de Israel de todos os seus opressores, restaurar o trono do Rei Davi e espalhar por toda a terra o juízo de Deus. Esse Messias seria cheio do Espírito de Javé, quer dizer, da sua força: o próprio nome “messias” quer dizer “ungido”... ungido pelo Espírito de Javé. Era assim que os apóstolos acreditavam, assim que Maria pensava, assim que qualquer judeu piedoso do Antigo Testamento imaginava.

Veio Jesus; ele dizia ser o Messias: no início do seu ministério ele foi ungido pela força de Javé, quer dizer, pelo seu Espírito. Quando Javé o ungiu no Jordão, apresentou-o assim: “Este é o meu Filho amado, de quem eu me agrado (Mt 3,17). Isso mesmo: Jesus foi apresentado como Filho de Javé. Já na anunciação o Anjo tinha dito a Maria: “Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1,32). Mas, atenção: isto não queria dizer ainda que Jesus era Deus! No Antigo Testamento os reis eram chamados “filho de Deus” (cf. Sl 2,6s; 2Sm 7,14), também o povo de Israel era chamado assim (cf. Is 1,2;Dt 32,20; Os 11,1). Mais ainda: os justos, os pobres, todos estes eram considerados “filhos de Deus”, quer dizer seus protegidos, seus amigos (cf. Sb 2,16.18). Assim, quando os judeus falavam em filho de Deus não pensavam que alguém fosse Deus, fosse igual a Javé! Isso, nem pensar!

Assim, nem Maria, nem os apóstolos, nem ninguém imaginava que Jesus fosse Deus! O povo de Israel tinha muito claro na mente as palavras solenes da Escritura: “Ouve, ó Israel! Javé nosso Deus, Javé é um só!” (Dt 6,4) No entanto, um coisa é certa: Jesus se dizia Filho de Deus e agia de um modo completamente novo, estranho em relação a Deus: ele era íntimo demais de Javé; chegava mesmo a tratá-lo de um modo que ninguém ousava tratar: chamava-o de “meu Abbá”, quer dizer, “meu painho”, ou “meu papai”! Isto mesmo: abbá era o modo como as criancinhas pequenas chamavam os seus pais! Jesus nunca dizia “nosso Abbá”; dizia sempre “meu Abbá”. Você deve estar pensando no Pai-nosso, o “Abbá nosso” que Jesus nos ensinou... Cuidado! Jesus diz assim: “(Vós) Orai desta maneira: Abbá nosso...” (Mt 6,9); Quando (vós) orardes, dizei: Abbá... (Lc 11,2) A idéia é clara: Jesus manda que nós digamos “Abbá nosso”; ele não entra, não diz “nós”, diz “vós”! Ele se considera Filho de Javé de um modo todo especial: “Subo ao meu Abbá e vosso Abbá, ao meu Deus e vosso Deus!” (Jo 20,17). Mais uma vez aparece claramente: Javé é Deus e Pai de Jesus de um modo único, exclusivo, diferente do modo de ser nosso Deus e nosso Pai! Por isso mesmo Jesus se colocava numa intimidade com Javé que parecia aos judeus muito desrespeitosa e atrevida. E mais: Jesus agia com uma autoridade que parecia igual a de Javé; fazia coisas que somente Javé poderia fazer:
·         perdoava os pecados (cf. Mc 2,1-12)
·         dominava o mar (cf. Mc 4,35-41; Jo 6,16-21 – segundo o Antigo Testamento somente Javé poderia dominar o mar – cf. Pr 8,29; Jó 38,8-11; Sl 104,7-9)
·         interpretava a Lei com uma autoridade espantosa: “ouvistes o que foi dito (na Lei) aos antigos... eu, porém, vos digo” (cf. Mt 5,21-48)
·         quando ensinava, já começava exigindo obediência, antes mesmo de falar: “Amém, amém eu vos digo” (cf. Jo 8,34; 6,47; 12,24).
Assim, compreendamos bem: nada disso afirmava que Jesus era Deus, que era igual a Javé, mas uma coisa é certa: ele agia de tal modo que se colocava numa proximidade com Deus que ninguém neste mundo poderia imaginar. Tanto isto é verdade, que os judeus chegavam a reconhecer: “Sendo apenas homem, tu te fazes Deus! (Jo 10,33)
Mas, repito, nem os apóstolos, nem os discípulos de Jesus, nem ninguém, poderia sonhar que ele era igual a Javé, que ele era divino, que ele era Deus! E como, finalmente, a Igreja chegou a esta conclusão? Como os apóstolos chegaram a afirmar que Jesus é Deus, com o Pai e o Espírito Santo? É no próximo tópico que veremos isto!

Tudo começou num Domingo – II
Vimos, no tópico passado que nem o Antigo Testamento nem ninguém na época de Jesus suspeitava que Deus fosse trino, que o Filho e o Santo Espírito fossem Deus! O Deus de Israel chamava-se Javé (Jeová é uma tradução errada do nome de Deus!) e basta! Vimos também que Jesus se apresentou e agiu como “filho de Deus’... mas “filho de Deus” não significava que ele era igual a Deus, que ele era Deus! Finalmente, vimos que Jesus agia e falava com uma autoridade que deixava seus contemporâneos espantados: “Sendo apenas homem, tu te fazes Deus!” (Jo 10,33)
Ficamos, no tópico passado, com uma pergunta: como, então, a Igreja apostólica descobriu que Deus era trino? Foi no Dia da Ressurreição! Quando, naquele primeiro dia depois do sábado, o Ressuscitado veio ao encontro dos discípulos, eles foram surpreendidos. Não somente porque Jesus estava vivo, mas, sobretudo porque estava ressuscitado, quer dizer, completamente transfigurado: seu corpo estava totalmente transformado; era o mesmo Jesus, trazia ainda as marcas da paixão, mas estava de tal modo glorificado que mal os discípulos conseguiam reconhecê-lo! Antes, só o reconheciam porque ele mesmo se dava a conhecer (cf. Lc 24,15s.30s; 24,36ss; Jo 20,11ss; 20,26ss; 21,4ss). Seu corpo, apesar de real, não mais pertencia a este mundo: o espaço, o tempo, a matéria como a conhecemos... tudo isto fora ultrapassado por Jesus! Também sua alma estava transfigurada: suas palavras, gestos, atitudes, tinham agora uma majestade que os discípulos, diante dele, prostravam-se e o adoravam (cf. Mt 28,17; Lc 24,50ss; Jo 20,17). Jesus aparece, agora com uma glória que não é deste mundo, que é divina. Mais tarde, São João dirá: “Nós vimos a sua glória, glória que tem junto ao Pai como Filho único, cheio de graça e verdade” (Jo 1,15).
Mas, quem glorificou Jesus deste modo? E como? Quem o glorificou foi Javé, o Deus de Israel, aquele a quem Jesus chamava de Pai! Ele transformou de tal modo a natureza humana de Jesus, que agora aparecia claro que Jesus tinha a mesma glória de Javé. Os escritos do Novo Testamento estão cheios desta convicção: “Jesus, o Nazareu, ... vós o matastes, mas Deus o ressuscitou!” (At 2,24); “Deus constituiu Senhor e Cristo, a esse Jesus que vós crucificastes” (At 2,36); “... a ação do seu poder eficaz (de Deus), que ele (Deus) fez operar em Cristo, ressuscitando-o de entre os mortos e fazendo-o assentar à sua direita nos céus, muito acima de qualquer Principado... e de todo nome que se possa nomear. Tudo ele (o Pai) pôs debaixo de seus pés (do Filho), e o pôs acima de tudo” (Ef 1,19ss). Então, para os discípulos, agora tudo aparecia claramente: Jesus não somente era “filho de Deus” num sentido figurado mas, pela sua ressurreição, estava totalmente glorificado, divinizado, adorável como Javé! Ora, mas se ele agora aparecia claramente como divino, então é porque sempre o fora: ”Ele tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo” (Fl 2,6). Desde a ressurreição, os discípulos podiam compreender: Jesus sempre fora Filho e Javé sempre fora Pai desse Filho eterno. Agora tinham pleno sentido algumas palavras de Jesus: “E agora, glorifica-me, Pai, junto de ti, com a glória que eu tinha junto de ti antes que o mundo existisse” (Jo 17,5); “Quem me vê, vê o Pai. Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14,9s); “Antes que Abraão existisse, EU SOU” (Jo 8,58). Portanto, o Filho existe eternamente e provém eternamente de Javé, que é eternamente Pai: os dois são divinos, os dois têm a mesma dignidade: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus (Pai) e o Verbo era Deus (como o Pai)” (Jo 1,1); “Ele (o Filho) é o resplendor de sua glória (do Pai) e a expressão do seu ser” (Hb 1,3). Quando o Filho disse que o Pai era maior que ele (cf. Jo 14,28) é porque, ao se fazer homem, ele tomou a condição de servo, fazendo-se obediente ao Pai por nós (cf. Fl 2,6-7). Agora, com a ressurreição, ele aparece totalmente glorificado mais uma vez; glorificado inclusive na sua natureza humana, antes tão humilde quanto a nossa!
Assim, portanto, naquele Domingo da ressurreição, os discípulos experimentaram, descobriram, testemunharam que Javé é Pai do Filho eterno, que, por sua vez, é igual a ele: Jesus!
Mas, de que modo Javé ressuscitou Jesus, como o glorificou? Os discípulos já tinham ouvido falar, no Antigo Testamento, no espírito de Javé: era uma força de Deus que impelia os profetas e reis! Mas, agora, o que eles descobriram foi uma coisa totalmente surpreendente: esse Espírito não só dava força, mas glorificava, quer dizer, divinizava (= tornava divino). Sim: o Espírito que o Pai derramou sobre Jesus morto divinizou a sua natureza humana! Ora, ninguém dá o que não tem: se o Espírito diviniza, é porque é divino, é porque é Deus! O Novo Testamento está cheio desta certeza: “(Jesus) morto na carne (= na sua natureza humana) foi vivificado no Espírito (no Espírito Santo)” (1Pd 3,18). Jesus foi estabelecido pelo Pai... “Filho de Deus com poder através de sua ressurreição dos mortos, segundo o Espírito de santidade” (Rm 1,4). Pedro, no dia de Pentecostes, vai dizer para quem quiser ouvir: “Este mesmo Jesus, Deus o ressuscitou; e disto somos testemunhas. E agora, exaltado pela direita de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo” (2,32s). Assim, este Espírito não era somente uma força do Pai, uma energia, mas era Deus também, como o Pai e o Filho! Por isso, aquelas palavras de Jesus: “Rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade” (Jo 14,16); “O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26); “Quando vier o Paráclito, que vos enviarei de junto do Pai, o Espírito da Verdade, que vem do Pai, ele dará testemunho de mim” (Jo 15,26); “Quando ele vier (o Paráclito), estabelecerá a culpabilidade do mundo a respeito do pecado, da justiça e do julgamento” (Jo 16,8); “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará...” (Jo 16,13).
Agora, sim, tudo estava claro: Javé é o Deus eterno, o Deus de Israel; mas ele, o Deus único, não é um Deus solitário: ele é o Pai eterno do eterno Filho, Deus com ele e como ele! E mais: com o Pai e o Filho existe eternamente o Santo Espírito, Deus como o Pai, Deus como o Filho! Na Páscoa, o Pai ressuscitou o Filho (na sua natureza humana), divinizando-o, glorificando-o, na potência divina do Santo Espírito!
Foi assim que a Igreja descobriu, experimentou e professou, adorando, a Trindade Santa. Mas, isso era apenas o começo! São um ou três deuses? Como expressar com palavras esse mistério tão grande? Como compreender as relações entre esses três? O que é um na Trindade? O que são três? Nos próximos tópicos vamos acompanhar, passo por passo, como tudo isso foi sendo compreendido pelos cristãos.





A SANTÍSSIMA TRINDADE EM NÓS - CONSEQÜÊNCIAS PRÁTICAS

De Garrigou-Lagrange, O. P.Santo Tomás, no final de seu tratado sobre a Santíssima Trindade, fala-nos das missões divinas e da habitação das três Pessoas Divinas em toda alma justa. Ele dá-nos uma certa inteligência deste mistério recordando-nos que Deus está sempre presente em todas as coisas, especificando de qual maneira especial está realmente nos justos e quais são os efeitos de Sua ação neles.

Presença geral de Deus em todas as criaturas.
Deus está, em primeiro lugar, presente em todas as coisas como causa conservadora por um contato, não quantitativo mas virtual; semelhante, não ao contato de nossa mão e do papel onde ela escreve, mas ao contato da nossa vontade e da mão que ela move. É o contato dinâmico da Onipotência e o efeito imediato produzido por Ela. A conservação da criatura na existência é, de fato, a seqüência do ato criador. Ora, Deus criou sem intermediário, sem nenhum instrumento, a matéria, sujeito primeiro de toda mudança corpórea, e produziu igualmente ex nihilo, do nada, as almas espirituais e imortais e os espíritos puros finitos. Ele conserva, portanto, imediatamente, a matéria, as almas, os anjos; portanto, existe um contato dinâmico da Onipotência (que não é realmente distinta da natureza divina) com nosso ser natural. É a presença geral de Deus em todas as coisas, dita presença de imensidade, aquela de que fala São Paulo quando diz: O Deus que fez o mundo, sendo o Senhor do céu e da terra... não está distante de cada um de nós, pois é Nele que temos a vida, o movimento e o ser. (At 17, 28) Deus é como o lago donde emana a vida da criação; Ele é a força central que atrai tudo a ela, como o diz a liturgia: "Rerum Deus tenax vigor, immotus in te permanens".

Presença especial de Deus nos justos segundo a Escritura.

A Santa Escritura não nos fala somente desta presença geral de Deus em todas as coisas, mas também duma presença especial de Deus nos justos. É dito no Antigo Testamento, no livro da Sabedoria I, 4: A sabedoria divina não entrará numa alma maligna, não habitará num corpo sujeito ao pecado. Seria somente a graça criada ou o dom criado da sabedoria, que viria habitar na alma do justo?

As palavras de Nosso Senhor nos trazem uma nova luz e nos mostram que são as próprias pessoas divinas que vêm habitar em nós: Se alguém me ama, diz, ele observará minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e faremos nele Nossa morada (Jo 14, 23). Ao mesmo tempo Nosso Senhor promete enviar-nos o Espírito Santo (Ibid., 26). Segundo estas palavras, quem virá? Seriam somente os efeitos criados, a graça santificante, a caridade espalhada nos nossos corações? Não. Estes que vêm são Aqueles que amam: Meu Pai e eu viremos a ele, e não duma maneira transitória, mas faremos nele Nossa morada. Rogarei a meu Pai e ele vos dará um outro consolador, para que habite em vós para sempre, o Espírito da verdade... que vos ensinará todas as coisas e vos lembrará tudo o que eu vos disse. (Ibid., 16-26) Estas palavras não são ditas somente aos apóstolos — eles verificaram-nas em si, no dia de Pentecostes, que é renovado em nós pela Confirmação.

Este testemunho do Salvador é claro, explicitando bastante o que diz o livro da Sabedoria. São realmente as três Pessoas Divinas que vêm habitar de maneira permanente nas almas justas.

Deste modo o compreenderam os apóstolos. São João escreve (1 Jo 4, 9-16): Deus é caridade... e aquele que está na caridade permanece em Deus, e Deus nele. Ele possui Deus em seu coração, mas, mais ainda, Deus o possui e o guarda nele, conservando, não somente a existência natural, mas a vida da graça e a caridade.

São Paulo diz o mesmo (Rm 5, 5). Enquanto a alma permanecer em estado de graça, enquanto conservar a caridade, ela será o templo do Espírito Santo.

Em várias ocasiões, São Paulo volta a esta doutrina consoladora: Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o espírito de Deus em vós habita? (1 Cor 3, 16; 6, 19). Esta presença especial das três Pessoas Divinas é especialmente apropriada ao Espírito Santo, porque ela depende da caridade — a qual nos assimila a Ele mais que ao Pai e ao Filho, pois que Ele é o amor pessoal. Elas estão também em nós, segundo o testemunho de Jesus, mas nós não lhes seremos perfeitamente assimilados senão recebendo a luz da glória, que nos fará marcados pela semelhança do Verbo, que é o esplendor do Pai. De modo equivalente fala Leão XIII em sua encíclica sobre o Espírito Santo: "Divinum illud munus" de 9 de maio de 1897.

A Escritura ensina portanto mui explicitamente que as três Pessoas Divinas habitam em toda alma justa, em toda alma em estado de graça. A tradição, pela voz dos primeiros mártires, pela voz dos Padres, pelo ensino oficial da Igreja mostra, por outro lado, que é deste modo que é preciso compreender o que diz a Escritura.[1]
Qual união resulta desta habitação?

Os teólogos comumente ensinam que esta união do justo às Pessoas Divinas difere imensamente da união hipostática da humanidade de Jesus ao Verbo; a coisa é manifesta, pois a união hipostática é a união da natureza divina e da natureza humana numa só e mesma pessoa, aquela do Verbo.

Ao contrário, o justo tem com Deus uma união não-substâncial, mas acidental e moral. Em outros termos, é uma união pelo conhecimento e o amor. Contudo, esta união é real, pois as Pessoas Divinas estão presentes no justo não só por um efeito de sua operação, como o sol está presente sobre a terra pela luz e pelo calor que lhe envia; as próprias Pessoas Divinas estão realmente e substancialmente presentes na alma justa (sem lhe estar substancialmente unida como o Verbo à humanidade de Jesus). Os teólogos normalmente dizem: "solus Deus illabitus animae", Deus está realmente presente na alma justa, mais intima que ela mesma, como o princípio íntimo de sua vida interior.

Os teólogos também concordam geralmente em admitir que, como já dissemos, a habitação das três Pessoas Divinas é própria ao Espírito Santo, pois que depende da caridade, a qual nos assimila mais ao Espírito Santo, amor pessoal, do que a fé esclarecida pelos dons nos assimila ao Verbo e por Ele ao Pai. A perfeita assimilação ao Verbo e ao Pai far-se-á quando nós recebermos a luz da glória.[2]

Enfim, geralmente se ensina que o Espírito Santo santifica a alma justa, não como causa formal, mas como causa eficiente e exemplar.

Eis porque não devemos dizer que o Espírito Santo é, propriamente falando, "a alma de nossa alma, a vida de nossa vida", mas que é, por assim dizer, "como a alma de nossa alma, como a vida de nossa vida". Ele não é, de fato, o constitutivo formal dela, mas, com o Pai e o Filho, é causa eficiente de nossa santificação, pois produz, conserva e aumenta em nós a graça santificante e a caridade. Além disso, é a causa exemplar dela, pois a caridade criada é uma similitude participada da caridade incriada [3]. Também é o seu fim último atraindo a si soberanamente, está em nós, junto com o Pai e o Filho, como um objeto quase experimentalmente conhecível e às vezes efetivamente conhecido, e amado acima de tudo.
Quais são as conseqüências práticas da habitação da Santíssima Trindade em nós?

Uma vez que o Espírito Santo habita em nós e nos concede, com a caridade, os sete dons, que estão em nós como em um barco com velas dóceis à impulsão do vento favorável, devemos ter uma grande docilidade com relação ao Espírito Santo. Isto supõe primeiramente o silencio em nossa alma, para que as inspirações divinas, ainda latentes, não passem desapercebidas; é preciso silenciar as paixões mais ou menos desregradas, as de afeições naturais, da ambição; silencio que supõe a mortificação de tudo o que há em nós de desordenado.

A docilidade ao Espírito Santo supõe também o discernimento para distinguir as inspirações divinas daquelas que não são boas senão aparentemente. As que vêm do Espírito Santo nos lembram quase sempre um dever; em outras oportunidades, contêm um conselho manifestamente conforme a nossa vocação, e ai, então, é seguro que convém grandemente segui-los. E então as inspirações se tornam cada vez mais numerosas e prementes. Quem pode dizer o valor de uma só inspiração verdadeiramente conforme à nossa vocação? Não segui-la expõe-nos a vegetar durante anos, segui-la orienta-nos docilmente à santidade.

Praticamente, não se deve ir nem muito lentamente, por falta de generosidade, nem muito rápido, por presunção.

Muitos vão muito lentamente e tornam-se almas atrasadas; não são mais iniciantes, e tampouco progridem. Estas almas são, na vida espiritual, como crianças anormais que não cresceram, e que se tornam um tanto disformes, como anões.

Como uma alma torna-se atrasada? Isso ocorre-lhe sobretudo pela negligencia às pequenas coisas na pratica das virtudes e da piedade. Cessamos de ver o lado grandioso das pequenas coisas no serviço de Deus e nos dispomos assim a ver só os pequenos aspectos das grandes coisas, como a missa, a palavra de Deus, a teologia, o ministério apostólico; dispomo-nos a enxergar somente o que é exterior. A capacidade de julgamento decai com a vida. As pequenas coisas do serviço de Deus são pequenas em si mesmas, mas grandes pelo fim ao qual são ordenadas e pelo espírito de fé e de amor com o qual seria preciso cumprir-las; seriam então observadas espontaneamente, sem precisar refletir sobre elas, como o pianista que toca bem cada nota de seu piano. Estas pequenas coisas são a oração antes e depois do estudo, antes e depois das refeições, a prática atenta até aos detalhes das virtudes da humildade, da paciência, da doçura, da polidez. Em si é pouca coisa, como os cílios ou sobrancelhas de uma fisionomia humana, que, entretanto, sem eles estaria desfigurada. Como diz Santo Agostinho: "Minimum quidem minimum est, sed semper servare legem Dei etiam in minimis, hoc quidem maximum est". Aquele que é fiel nas pequenas coisas dispõe-se a ser fiel nas grandes quando estas lhe são pedidas: Qui fidelis est in mínimo, et in majori fidelis est. (Lc 16, 10). Assim mantém-se uma união não só habitual, mas atual com Deus, duma maneira quase continua e, por aí, fiel à graça do momento presente e às inspirações que ela contém.

Uma alma torna-se atrasada também pela recusa dos sacrifícios exigidos para romper com uma afeição demasiado sensível, com o gosto de confortos, com uma certa tendência à vaidade, ou à dominação. Tornamo-nos atrasados recusando seguir a inspiração que nos levaria a ser mais esforçados, mais generosos no serviço de Deus, mais atentos às necessidades da alma do próximo. Então, a vida decai cada vez mais, e o julgamento com a vida, pois cada um julga segundo sua inclinação. É deste modo que até mesmo almas consagradas podem se transformar em almas atrasadas; e então os efeitos usuais da habitação da Santíssima Trindade nelas produzem-se cada vez menos.* * *É evidente que é preciso reagir, evitando a todo custo o defeito contrario que é o da precipitação, pois então a reação seria totalmente superficial e de curta duração. Evitemos a precipitação da criança que quer correr no começo de uma ascensão, e que, fatigada ao final de dois quilômetros, renuncia à escalada. É necessário, como dissemos, caminhar ao passo pequeno e resoluto do montanhês, que não se detém senão no cume.

Não se deve querer voar antes de ter asas, e não confundir o primeiro momento de entusiasmo com o firme propósito de avançar custe o que custar. Nem confundir a ordem da intenção, onde o fim entrevisto e desejado é o primeiro, com a ordem da execução, onde o fim só é obtido e conquistado em último lugar, depois de se ter empregado todos os meios, desde os menores até os mais elevados. Precisamos evitar o sentimentalismo que está na sensibilidade, a afetação de um amor que não se tem, ou não o bastante, na vontade. É preciso dar-se conta, com um realismo são, que existe desde há muito tempo, tempo demais, no fundo de nossa vontade, como diz Tauler, uma misteriosa luta, algumas vezes trágica, entre a caridade que tende a se enraizar e o egoísmo que tende a renascer sempre como erva-daninha.

Veremos então se realizar pouco a pouco as conseqüências normais da habitação da Santíssima Trindade em nós, aquelas notadas por Santo Tomás: (Suma Contra Gentios. 1, IV, c. 21 e 22). Receberemos graças sempre novas de luz, de atração, de amor, de generosidade, de força e de paciência; possuiremos cada vez mais a presença de Deus, entreter-nos-emos constantemente com Ele, como Santo Domingos que não sabia falar senão com Deus ou sobre Deus; encontraremos nesta conversação íntima a paz, às vezes o júbilo, com o desejo de uma conformidade cada vez maior com a vontade divina, e nesta conformidade desejada encontraremos a santa liberdade dos filhos de Deus, porque a vontade divina reinará cada vez mais na nossa vontade, na medida em que a caridade se enraizar mais profundamente nela. Compreenderemos, então, cada vez melhor, que nossa vontade é de uma profundidade sem medida, já que só Deus, visto face a face, pode saciá-la e atraí-la irresistivelmente.Roma, Angélico.(La Vie Spirituelle n° 288, junho de 1944.)



[1] Cf. Rouet de Journel, Enchiridion Patristicum (in fine, index theologicus, n° 185, 357) noticia os testemunhos de inumeros Padres gregos e latinos. É preciso sobretudo citar Santo Inácio de Antioquia, Santo Atanásio, São Basílio, São Cirilo de Alexandria, Santo Ambrósio e Santo Agostinho.[2] Leão XIII diz em sua encíclica Divinum illud munus: "Haec praesentia est totius Trinitatis, attamen de spiritu sancto tanquam, pecullaris praedicatur".[3] Cf. Santo Tomás, IIIª, q. 3, a. 5, ad 2.