Follow by Email

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A vida das monjas




TRECHOS DO DISCURSO DO SANTO PADRE
NA VISITA NUM MOSTEIRO

Domingo, 9 de Setembro de 2007

Num mosteiro o louvor a Deus, que as monjas celebram como coral oração solene, tem sempre a prioridade. Sem dúvida e graças a Deus! não são apenas as monjas que rezam; também rezam outras pessoas: crianças, jovens e idosos, homens e mulheres, pessoas casadas e solteiras cada cristão reza, ou pelo menos deveria fazê-lo!

Contudo, na vida das monjas a oração tem uma especial importância: é o centro da sua tarefa profissional. Elas, de fato, exercem a profissão do orante. Na época dos Padres da Igreja, a vida monástica era qualificada como vida à maneira dos anjos. E como característica fundamental dos anjos via-se o seu ser adoradores. A sua vida é adoração. Elas rezam antes de tudo não por esta ou aquela coisa, mas simplesmente porque Deus merece ser adorado. "Confitemini Domino, quoniam bonus! Celebrai o Senhor, porque ele é bom, porque eterna é a sua misericórdia!", exortam vários Salmos (por ex. Sl 106, 1). Uma oração assim sem uma finalidade específica, que deseja ser puro serviço divino é com razão chamado "officium". É o "serviço" por excelência, o "serviço sagrado" das monjas. Ele é oferecido a Deus trino que, acima de tudo, é digno "de receber a glória, a honra e o poder" (Ap 4, 11), porque criou o mundo de modo maravilhoso e de maneira ainda mais maravilhosa o renovou.


Ao mesmo tempo, o officium dos consagrados é também um serviço sagrado aos homens e um testemunho para eles. Cada homem tem no íntimo do seu coração, consciente ou inconscientemente, a nostalgia de uma satisfação definitiva, da máxima felicidade, portanto, no fundo a nostalgia de Deus. Um mosteiro, no qual a comunidade se reúne várias vezes ao dia para louvar a Deus, testemunha que este originário desejo humano não cai no vazio: o Deus Criador não nos colocou nas trevas assustadoras onde, às apalpadelas, deveríamos desesperadamente procurar um sentido último fundamental (cf. Act 17, 27); Deus não nos abandonou num deserto do nada, privado de sentido, no qual, em última análise, nos espera apenas a morte. Não! Deus iluminou as nossas trevas com a sua luz, por obra do seu Filho Jesus Cristo. N'Ele, Deus entrou no nosso mundo com toda a sua "plenitude" (cf. Cl 1, 19), n'Ele toda a verdade, da qual sentimos saudade, tem a sua origem e o seu ápice (cf. Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, n. 22).


A nossa luz, a nossa verdade, a nossa meta, a nossa satisfação, a nossa vida tudo isto não é uma doutrina religiosa, mas uma Pessoa: Jesus Cristo. Muito além das nossas capacidades de procurar e de desejar Deus, antes já fomos procurados e desejados, aliás, encontrados e remidos por Ele!

O olhar dos homens de todos os tempos e povos, de todas as filosofias, religiões e culturas encontra por fim os olhos abertos do Filho de Deus crucificado e ressuscitado; o seu coração aberto é a plenitude do amor. Os olhos de Cristo são o olhar do Deus que ama. A imagem do Crucificado sobre o altar, mostra que este olhar se dirige para cada homem. O Senhor, de fato, vê no coração de cada um de nós.
 Imagem do Crucificado sobre o altar da Capela da Casa Madre

O cerne do monaquismo é a adoração o viver como os anjos. Contudo, sendo as monjas mulheres de carne e sangue nesta terra, juntamente com a oração, é também o trabalho, a cultivação da terra em conformidade com a vontade do Criador. Assim, em todos os séculos as monjas, partindo do seu olhar dirigido para Deus, tornaram a terra vivível e bela. A salvaguarda e o cuidado da criação provêm precisamente do seu olhar para Deus. No ritmo do ora et labora a comunidade das consagradas dá testemunho daquele Deus que em Jesus Cristo olha para nós, quer para o homem quer para o mundo que, olhados por Ele, se tornam bons.


Não só as monjas dizem o officium, mas a Igreja inspirou-se na tradição monástica a recitação do Breviário para todos os religiosos, e também para sacerdotes e diáconos. Também aqui é válido que as religiosas e os religiosos, os sacerdotes e os diáconos e naturalmente também os Bispos na quotidiana oração "oficial" se apresentam diante de Deus com hinos e salmos, com agradecimentos e pedidos sem finalidades específicas.

Queridos irmãos no ministério sacerdotal e diaconal, estimados irmãos e irmãs na vida consagrada! Eu sei que é necessária disciplina, aliás, por vezes até a superação de si para recitar fielmente o Breviário; mas mediante este officium recebemos ao mesmo tempo muitas riquezas: quantas vezes, ao fazer isto, cansaço e desencorajamento dissipam-se! Onde Deus é louvado e adorado com fidelidade, não falta a sua bênção. Com razão se diz: "Tudo depende da bênção de Deus!".

O vosso principal serviço para este mundo deve portanto ser a vossa oração e a celebração do Ofício. A predisposição interior de cada sacerdote, de cada pessoa consagrada deve ser a de "nada antepor ao Ofício divino". A beleza desta predisposição interior expressar-se-á na beleza da liturgia, a ponto que onde juntos cantamos, louvamos, exaltamos e adoramos Deus, torna-se presente na terra um pouco de céu. Deveras não é exagerado dizer que numa liturgia totalmente centrada em Deus, nos ritos e nos cânticos, se vê uma imagem da eternidade

A arquitetura só por si atrai para o alto os nossos sentidos para "aquelas coisas que nenhum olho viu, nenhum ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem, o que Deus preparou para aqueles que O amam" (cf. 1 Cor 2, 9). Em cada forma de empenho pela liturgia o critério determinante deve ser sempre o olhar dirigido para Deus. Nós estamos diante de Deus Ele fala-nos e nós falamos com Ele. Quando, nas reflexões sobre a liturgia, nos perguntamos como torná-la atraente, interessante e bela, o jogo já está feito. Ou ela é opus Dei com Deus como sujeito específico ou não o é. Neste contexto peço-vos: realizai a sagrada liturgia tendo o olhar em Deus na comunhão dos Santos, da Igreja vivente de todos os lugares e de todos os tempos, para que se torne expressão da beleza e da sublimidade do Deus amigo dos homens!

Por fim, a alma da oração é o Espírito Santo. Sempre, quando rezamos, na verdade é Ele que "vem em ajuda da nossa debilidade, intercedendo com insistência por nós, com gemidos indescritíveis" (cf. Rm 8, 26). Confiando nesta palavra do apóstolo Paulo garanto-vos, queridos irmãos e irmãs, que a oração suscitará em vós aquele efeito que outrora se expressava chamando sacerdotes e pessoas consagradas simplesmente "Geistliche" (isto é, pessoas espirituais). O Bispo Sailer de Ratisbona disse certa vez que os sacerdotes deveriam ser antes de tudo pessoas espirituais. Gostaria que a expressão "Geistliche" voltasse de novo a ser mais usada. Mas contudo é importante que se cumpra em nós aquela realidade que a palavra descreve: que no seguimento do Senhor, em virtude da força do Espírito, nos tornemos pessoas "espirituais". 




Queridas irmãs tornai muito evidente para os homens esta prioridade de Deus! Como oásis espiritual um mosteiro indica ao mundo de hoje o que é mais importante, aliás, no final a única coisa decisiva: existe uma razão última pela qual vale a pena viver, isto é Deus e o seu amor imperscrutável.

E peço-vos, queridas irmãs considerai as vossas abadias e os vossos mosteiros aquilo que são e sempre desejam ser: não apenas lugares de cultura e tradição ou até simples empresas econômicas. Estrutura, organização são necessárias também na Igreja, mas não são o essencial.

Um mosteiro é sobretudo um lugar de força espiritual. Ao entrar num dos vossos mosteiros tem-se a mesma impressão de quando, depois de uma caminhada sobre os Alpes que foi cansativa, finalmente podemos refrescar-nos num ribeiro de água nascente... Portanto, aproveitai destas nascentes da proximidade de Deus no vosso País, estimai as comunidades religiosas, os mosteiros e as abadias e recorrei ao serviço espiritual que os consagrados se disponibilizam a oferecer-vos! 
 Particular do claustro do Mosteiro

Para que hoje uma chamada ao sacerdócio e ao estado religioso possa ser vivida com fidelidade por toda a vida, é necessária uma formação que integre fé e razão, coração e mente, vida e pensamento. Uma vida no seguimento de Cristo precisa da integração de toda a personalidade.

Onde se descuida a dimensão intelectual, nasce demasiado facilmente uma forma de paixão piedosa que vive quase exclusivamente de emoções e de estados de ânimo que não podem ser mantidos por toda a vida. E onde se descuida a dimensão espiritual, cria-se um racionalismo rarefato que com base na sua frieza e no seu desapego nunca pode desembocar numa doação entusiasta de si a Deus. Não se pode basear uma vida no seguimento de Cristo sobre tais unilateralidades; com as meias medidas permanecer-se-ia pessoalmente insatisfeitos e, por conseguinte, talvez até espiritualmente estéreis. Cada chamada à vida religiosa ou ao sacerdócio é um tesouro tão precioso que os responsáveis devem fazer o possível por encontrar os caminhos de formação adequados para promover juntos fides et ratio a fé e a razão, o coração e a mente. 

Panorâmica do claustro do mosteiro

Gostaria de pedir à Mãe de Deus cada um a fazer-se confiantemente "criança" diante de Maria, como o fez o próprio Filho de Deus. São Bernardo diz, e nós dizemos com ele: "Olha para a estrela, invoca Maria... Nos perigos, nas angústias, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. Não se afaste o seu nome dos teus lábios, não se afaste do teu coração... Se a seguires não te perdes, rezando a ela não desesperas, pensando nela não erras. Se ela te ampara, não cais; se ela te protege, não temes; se ela te guia, não te cansas, se ela te concede os seus favores, chegas ao teu fim" (Bernardo de Claraval, In Laudibus Virginis Matris, Homilia 2, 17). 
 Imagem de Nossa Senhora venerada no jardim do Mosteiro


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

As Intenções indicadas ao Apostolado da Oração para o MÊS DE OUTUBRO





 
7 DE OUTUBRO
NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

 
 
Memória
– O Rosário, arma poderosa.
– Contemplar os mistérios do Rosário.
– A ladainha lauretana.

Esta festa foi instituída por São Pio V para comemorar e agradecer à Virgem a sua ajuda na vitória sobre os turcos em Lepanto, no dia 7 de outubro de 1571. É famoso o seu Breve Consueverunt (14-IX-1569), que via no Rosário um presságio da vitória. Clemente XI estendeu a festa a toda a Igreja no dia 3-X-1716. Leão XIII conferiu-lhe um nível litúrgico mais elevado e publicou nove admiráveis Encíclicas sobre o Santo Rosário. São Pio X fixou definitivamente a festa no dia 7 de outubro. A celebração deste dia é um convite para que todos rezemos e meditemos os mistérios da vida de Jesus e de Maria, que se contemplam nesta devoção mariana.

I. E, ENTRANDO O ANJO onde ela estava, disse-lhe: Salve, cheia de graça, o Senhor é contigo1. Com estas palavras, o anjo saudou Nossa Senhora, e nós as vimos repetindo incontáveis vezes em tons e circunstâncias muito diferentes.
Na Idade Média, saudava-se a Virgem Maria com o título de rosa (Rosa mystica), símbolo de alegria. Adornavam-se as suas imagens – como agora – com uma coroa ou ramo de rosas (em latim medieval Rosarium), como expressão dos louvores que brotavam dos corações cheios de amor. E os que não podiam recitar os cento e cinqüenta salmos do ofício divino substituíam-no por outras tantas Ave-Marias, servindo-se para contá-las de uns grãos enfiados por dezenas ou de nós feitos numa corda. Ao mesmo tempo, meditava-se a vida da Virgem e do Senhor. A Ave-Maria, recitada desde sempre na Igreja e recomendada freqüentemente pelos Papas e Concílios, tinha inicialmente uma forma breve; mais tarde, adquiriu a sua feição definitiva quando lhe foi acrescentada a petição por uma boa morte: rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte; em cada situação, agora, e no momento supremo de nos encontrarmos com o Senhor. Estruturaram-se também os mistérios, o argumento de cada dezena, contemplando-se assim os acontecimentos centrais da vida de Jesus e de Maria, como um compêndio do ano litúrgico e de todo o Evangelho. Também se fixou a recitação da Ladainha: um cântico cheio de amor, de louvores a Nossa Senhora e de súplicas, de manifestações de júbilo e de alegria.
São Pio V atribuiu a vitória de Lepanto – obtida no dia 7 de outubro de 1571 e com a qual desapareceram graves ameaças à fé dos cristãos – à intercessão da Santíssima Virgem, invocada em Roma e em todo o orbe cristão através do Santo Rosário. Por esse motivo, foi acrescentada à ladainha a invocação Auxilium christianorum. Desde então, esta devoção à Virgem foi constantemente recomendada pelos Sumos Pontífices como “oração pública e universal pelas necessidades ordinárias e extraordinárias da Igreja santa, das nações e do mundo inteiro”2.
Neste mês de outubro, que a Igreja dedica a honrar a nossa Mãe do Céu especialmente através do rosário, devemos verificar com que amor o rezamos, como contemplamos cada um dos seus mistérios, se oferecemos cada dezena por intenções cheias de santa ambição, como aqueles cristãos que, com a sua oração, alcançaram da Virgem uma vitória tão decisiva para toda a cristandade. Perante as dificuldades que experimentamos, perante a ajuda tão grande de que precisamos no apostolado, para levarmos adiante a família e aproximá-la mais de Deus, nas batalhas da vida interior, não podemos esquecer que “como em outros tempos, o Rosário há de ser hoje arma poderosa para vencermos na luta interior e para ajudarmos todas as almas”3.
II. O NOME ROSÁRIO provém do conjunto de orações, à maneira de rosas, que dedicamos à Virgem4. Também como rosas foram os dias da Virgem: “Rosas brancas e rosas vermelhas; brancas de serenidade e pureza, vermelhas de sofrimento e amor. São Bernardo diz que a própria Virgem foi uma rosa de neve e sangue. Já tentamos alguma vez desfiar as contas da sua vida, dia a dia, por entre os dedos das nossas mãos?”5 É o que fazemos ao contemplarmos as cenas – mistérios – da vida de Jesus e de Maria que se intercalam a cada dez Ave-Marias.
Nas cenas do Rosário, divididas em três grupos, percorremos os diversos aspectos dos grandes mistérios da salvação: o da Encarnação, o da Redenção e o da vida eterna6. Nesses mistérios, de uma forma ou de outra, temos sempre presente a Virgem. Não se trata apenas de repetir monotonamente as Ave-Marias a Nossa Senhora, mas de contemplar também os mistérios que se consideram em cada dezena. A meditação desses mistérios causa um grande bem à nossa alma, pois vai-nos identificando com os sentimentos de Cristo e permite-nos viver num clima de intensa piedade: alegramo-nos com Cristo gozoso, sofremos com Cristo paciente, vivemos antecipadamente na esperança, na glória de Cristo glorificado7.
Para realizarmos melhor essa contemplação dos mistérios, pode ser-nos útil seguir este conselho prático: “Demora-te por uns segundos – três ou quatro – num silêncio de meditação, considerando o respectivo mistério do Rosário, antes de recitares o Pai-Nosso e as Ave-Marias de cada dezena”8. É aproximarmo-nos da cena como um personagem mais, imaginar os sentimentos de Cristo, de Maria, de José...
Desse modo, procurando com simplicidade “assomar” à cena que se propõe em cada mistério, o Rosário “é uma conversa com Maria que nos conduz igualmente à intimidade com o seu Filho”9. Familiarizamo-nos no meio dos nossos assuntos quotidianos com as verdades da nossa fé, e essa contemplação – que pode ser feita mesmo no meio da rua, do trabalho –, ajuda-nos a estar mais alegres, a comportar-nos melhor com as pessoas que se relacionam conosco. A vida de Jesus, por meio da Virgem, torna-se vida também em nós, e aprendemos a amar mais a nossa Mãe do Céu. Quanta verdade nestes versos do poeta: “Tu que achas esta devoção / monótona e cansada, e não rezas / porque sempre repetes os mesmos sons..., / tu não entendes de amores e tristezas: / que pobre se cansou de pedir dons, / que enamorado de dizer coisas ternas?”10
III. DEPOIS DE CONTEMPLARMOS os mistérios da vida de Jesus e de Nossa Senhora com o Pai-Nosso e a Ave-Maria, terminamos o Rosário com a ladainha lauretana e algumas petições que variam conforme as regiões, as famílias ou a piedade pessoal.
A origem das ladainhas remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Eram orações breves, dialogadas entre os ministros do culto e o povo fiel, e tinham um especial caráter de invocação à misericórdia divina. Rezavam-se durante a Missa e, mais especialmente, nas procissões. A princípio, dirigiam-se ao Senhor, mas em breve surgiram também as invocações à Virgem e aos santos. As primícias das ladainhas marianas são os elogios cheios de amor dos cristãos à sua Mãe do Céu e as expressões de admiração dos Santos Padres, especialmente no Oriente.
A Ladainha que se reza atualmente no Rosário começou a ser cantada solenemente no Santuário de Loreto (de onde procede o nome de ladainha lauretana) por volta do ano 1500, mas baseia-se numa tradição antiqüíssima. Desse lugar espalhou-se por toda a Igreja.
Cada invocação é uma jaculatória cheia de amor que dirigimos à Virgem e que nos mostra um aspecto da riqueza da alma de Maria. Agrupam-se em torno das principais verdades marianas: a maternidade divina de Maria, a sua virgindade perpétua, a sua mediação, a sua realeza universal e a sua exemplaridade como caminho para todos os seus filhos. Assim, ao invocá-la como Santa Mãe de Deus, professamos expressamente a sua maternidade; quando a louvamos como Virgem das virgens, reconhecemos a sua virgindade perpétua; quando a invocamos como Mãe de Cristo, professamos a sua íntima união com o verdadeiro Mediador e Rei, e reconhecemo-la, portanto, como Rainha e medianeira...
A Virgem é Mãe de Deus e Mãe nossa, e é esse o título supremo com que a honramos e o fundamento de todos os outros. Por ser Mãe de Cristo, Mãe do Criador e do Salvador, também o é da Igreja e da divina graça, é Mãe puríssima e castíssima, intacta, amável, imaculada, admirável. E pelo privilégio da sua virgindade perpétua, é Virgem prudentíssima, veneranda, digna de louvor, poderosa, clemente, fiel...
A Mãe de Deus é além disso, Medianeira em Cristo11 entre Deus e os homens, e por isso invocamo-la sob três belíssimos símbolos e outros aspectos da sua mediação universal: Ela é a nova Arca da Aliança, a Porta do Céu através da qual chegamos a Deus, e a Estrela da manhã, que nos permite sempre orientar-nos em qualquer momento da vida; é Saúde dos enfermos, Refúgio dos pecadores, Consoladora dos aflitos, Auxílio dos cristãos...
Maria é Rainha de todas as coisas criadas, dos céus e da terra, porque é Mãe do Rei do universo. A universalidade do seu reinado começa pelos anjos e continua depois pelos santos (pelos do céu e pelos que na terra buscam a santidade): Ela é Rainha dos anjos, dos patriarcas, dos profetas, dos apóstolos, dos mártires, dos confessores (dos que confessam a fé), das virgens, de todos os santos. E a seguir recordamos quatro outros títulos da sua realeza: Maria é Rainha concebida sem pecado, assunta aos céus, do Santíssimo Rosário e da paz.
Depois de invocá-la como exemplo perfeito de todas as virtudes, aclamamo-la enfim com estes símbolos e figuras de admirável exemplaridade: Espelho da justiça, Sede da sabedoria, Causa da nossa alegria, Vaso espiritual, Vaso honorável, Vaso insigne de devoção, Rosa mística, Torre de Davi, Torre de marfim e Casa de ouro.
Ao determo-nos devagar em cada uma destas invocações, podemos maravilhar-nos com a riqueza espiritual, quase infinita, com que Deus ornou a sua Mãe. Causa-nos uma imensa alegria ter como Mãe a Mãe de Deus, e assim lho dizemos muitas vezes ao longo do dia. Cada uma das invocações da Ladainha pode servir-nos como jaculatória para lhe manifestarmos quanto a amamos, quanto precisamos dEla.
(1) Lc 1, 28; (2) João XXIII, Cart. Apost. Il religioso convegno, 29-IX-1961; (3) Josemaría Escrivá, Santo Rosário, pág. 7; (4) cfr. J. Corominas, Diccionário crítico etimológico castellano e hispánico, Gredos, Madrid, 1987, verbete Rosa; (5) J. M. Escartin, Meditación del Rosario, Palabra, Madrid, 1971, pág. 27; (6) cfr. R. Garrigou-Lagrange, La Madre del Salvador, Rialp, Madrid, 1976, pág. 350; (7) cfr. Paulo VI, Exort. Apost. Marialis cultus, 2-II-1974, 46; (8) Josemaría Escrivá, op. cit., pág. 15; (9) R. Garrigou-Lagrange, op. cit., pág. 353; (10) cit. por A. Royo-Marín, La Virgen Maria, BAC, Madrid, 1968, págs. 470-471; (11) cfr. João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater, 25-III-1987, n. 38.

Homilia do Pe. Francisco Fernández Carvajal

 



MÊS DE OUTUBRO
Geral: Pelo desenvolvimento e o progresso da Nova Evangelização nos Países do antigo cristianismo.
Missionária: Para que a celebração do Dia Mundial das Missões seja ocasião de um renovado compromisso de evangelização.

Dos Bispos: Para que as nossas famílias acolham a Virgem Maria assim como foi acolhida pelo Discípulo predileto e nos ajude a ser fiéis ao seu Filho Jesus.
Mariana: Para que Maria nos ensine a apreciar e amar a oração do santo Rosário.
Sacerdotal: Coração de Jesus, que os bispos façam esforços para acolher os sacerdotes sem se cansar, para agir com eles com um coração de pai e de mãe e os “considerar como filhos e amigos”.




 


Testemunho de um sacerdote

Com vocês aprendi que a oração é "escolher Deus"

Na minha estória pessoal, hoje está claro que a minha rejeição à chamada da parte de Deus tinha raízes na falta de humildade e de obediência ao querer de Dele quer, sempre, pediu tudo de mim. Esta falta de disponibilidade para ser usado por Ele incondicionalmente, esta resistência a abandonar-me Nele é a origem deste episódio. Era e é como um nó de egoísmo que levo dentro e que procuro dolorosamente desfazer , comprometendo-me a compartilhar finalmente com a sua vontade.

Está claro para mim que por anos fui um sacerdote fora da minha identidade sacerdotal, porque comprometido sempre em realizar exclusivamente os meus projetos e minhas esperanças e não os projetos e esperanças de Deus. A minha forte personalidade, a minha inteligência e tenacidade, foram tentações e apoio neste caminho de distanciamento da Sua direção. Acreditei haver conseguido dar forma e substância à uma “minha maneira” sacerdotal , porque, construída com uma genialidade que estimulava aplausos na igreja, tão brilhante de parecer uma autêntica missão. Construi para mim até uma justificativa teológica . Hoje, está claro que eram só pretextos.

Estava acostumado à leve angústia de ter sido confiado a Deus, de ter que renunciar a tantos bens exteriores e sobretudo aqueles interiores, aos ideais pessoais que, como todos, adorava tenazmente. Angustia de uma exigência de pura e simples missão, além disso, como "ovelha em meio aos lobos", sem poder deixar-me ser verdadeiramente eu mesmo e a minha maneira. Angústia de ter de responder coerentemente a esta voz imprevisível e penetrante que pede sempre mais e mais e sempre diferente daquilo que seria o seu desejo, de dar e receber. Angústia, em fim, diante a Deus, a qual simplicidade, a qual nudez e tão difícil de aceitar e de suportar da parte de quem se considera inteligente e forte. No fundo, se escondia fundamentalmente uma grave falta de fé, daquela fé que consiste na atitude de uma criança que se abandona nos braças de Deus e Dele só espera energia e orientação. Faltava-me aquela vida de fé que amadurece gradualmente na fidelidade moral de todo dia e pede um caminho constante e ininterrupto.

Agora está claro que , consagrado como sacerdote, nunca escolhi Deus verdadeiramente como fulcro daminha existência e de meu amor. Um problema de fé, um problema de amor: um problema de oração. Sim, acho verdadeiramente que a raiz da minha crise de identidade e de perseverança seja identificável em ter acreditado que a vocação fosse uma chamada para “ser” padre e não tê-la aceitado como chamada a “viver” a fé. Com outros, havia reduzido tudo a isto: bastava que eu conhecesse as minhas tarefas e deveres e que assinasse a minha corajosa declaração que estava disposto a assumi-la.Bastava que eu “escolhesse". Só hoje vejo claramente que a realidade de acolher é outra. Se trata de aceitar deliberadamente de “ter sido escolhido”, se trata de “reconhecer-se escolhido” e de amar este estado de coisa, de responder à chamada de um Outro, dizendo: meu Senhor e meu Deus!

Só a pouco comecei a me compreender como chamado e como mandado. Com a ajuda da graça me convenci disto e estou me educando para assumir esta verdade com critério de vida e de ação, como qualificação específica da minha pessoa. E já percebo que em volta deste núcleo de verdade aceita e adorada, está se construindo a minha harmonia pessoal, a minha pacificação rica de simplicidade e alegria.

Este processo de maturidade da minha pessoa durará por toda a vida porque devo recuperar muitos anos perdidos. É triste dizê-lo mas vivi, infelizmente, tempo demais em um presbitério que não tinha aceito completamente o Senhor e que não percebia a urgência de buscá-lo e escolhê-lo continuamente. Sacerdotes cansados Dele

Mas a descoberta importante já está em mim. Sim, ajudaram-me outros amigos e subsídios, mas sei muito bem que tudo se tornaria vão se eu não permanecesse fiel a uma escolha “minha” fundamental, a escolha de estar em diálogo íntimo com Deus. Experimentei que, para mim, a raiz da crise vocacional estava na falta de fé, mas a falta de fé era amadurecida para a falta de familiaridade habitual com o Senhor.

A minha oração já se chama "escolha de Deus" e a minha escolha de Deus se chama "oração". Este é o tipo exato que corresponde à vocação que me foi dada e à qual decidi permanecer fiel. Este é o compromisso fundamental que deve influir diretamente sobre a minha existência e deve se concretizar em atitude precisa e nos mil pequenos gestos de cada dia. Porque é impossível viver "verdadeiramente" aquilo que não se vive "cotidianamente", e para que os valores que dão vida e liberdade fiquem vivos em mim, só se os exprimo continuamente em gestos concretos, os mesmos valores mais altos desaparecem da mente e do coração, eu fiz esta dramática experiência, quando cheguei até a me perguntar até a me perguntar que sentido tinha a vida, que sentido tem Deus. Confesso: não era sacerdote "de Deus" simplesmente porque não havia nunca entrado de verdade, com a vida e com a alma, Nele, através da oração. Ninguém pode experimentar Deus e ficar fiel a Ele senão "vive" uma vida coerente com este ideal. A incoerência prática ao escolher a Ele conduz à negação prática (e às vezes até a teórica) Dele.

Com a força do desespero e com a alegria de ser salvo, comprometo-me para que Deus se torne sempre mais presença real, amigo fiel, pessoa viva dentro de mim. Esforço-me para tomar decisões que tenham sempre a Ele como fulcro e com termo, desconfiando das minhas motivações tão freqüentemente contaminadas de desânimo e segundas intenções. É um caminho longo que aprendi a percorrer com vocês, tomando decisões sinceras na solidão da minha intimidade. Lá o Pai se manifesta até a mim, dando-me uma nova consciência de si, o conhecimento que reservou para os pequeninos, para aqueles que não sonham alto, mas buscam-no cada dia nas voltas e nas misérias da própria vida.